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domingo, 22 de novembro de 2009

O temporal

Há dias não chove. Não sei o que há com esta cidade, com o país, com o mundo. Maldito efeito estufa! Está tudo tão seco! Como é possível depois de quase um mês de um sol sem trégua, de um calor senegalês, não termos uma gota da água sagrada dos deuses?

Já estava mais do que na hora. No fim da tarde, as nuvens negras cobrem o céu e uma brisa agradável chega às ruas. E com ela, vem um dos melhores cheiros do mundo: o cheiro da chuva. Sim, ela está chegando. Logo se sente os primeiros pingos, ainda fracos, porém constantes.

Dentro de pouco tempo eles tomam uma força extraordinária. Estrondos são ouvidos em volume ensurdecedor. Clarões e relâmpagos cortam o céu. O horizonte se turva e a natureza mostra todo o seu poder. As gotas, então, se tornam mais fortes e, quando sentidas, doem. Há quem goste de tomar banho de chuva, mas não é o meu caso. Gosto de ficar dentro de casa, de preferência de frente para o mar, próxima a uma janela bem ampla e em frente, uma varanda. E eu estou lá, protegida, assistindo ao grande espetáculo.

Se, por acaso, estiver ocorrendo uma ressaca no mar, melhor ainda. Para o programa se tornar perfeito só falta uma coisa. Engraçado o ser humano... Pode-se dizer que um grande temporal me excita, aguça meus sentidos. O olhar, a mão, o toque, o beijo, os carinhos, tudo fica mais intenso. Ter a sensação que o mundo está acabando, de que nada mais importa fortalece o aqui e agora. Perco o pudor e a timidez naturais, ouso. Então, o momento torna-se mais do que especial, é o último instante antes do fim do mundo. Tudo vale.

Meu ritual

Antes de te encontrar eu me maqueio, e o ambiente tem que ser perfeito para esse ritual. Claro, iluminado, limpo, estéril, para que não contamine nada durante a minha viagem para dentro de mim mesma. Gostaria de ter aqueles espelhos de camarim com lâmpadas em volta e uma penteadeira cheia de estojos de maquiagem. É o meu enorme arsenal de guerra que uso para disfarçar minhas olheiras, corrigir minhas imperfeições, manchas, espinhas e também para valorizar meus traços e minhas virtudes.

Por favor, não pense que faço isso por você! Há tempos não faço coisas para os outros, pois cansei de tentar agradá-los. Vou em busca da minha emoção, do meu desejo e da minha satisfação.

Começo pela base, que homogeniza toda a pele, me dando um aspecto angelical de porcelana, porém sem vida. Em seguida me ocupo dos olhos. Aí, então, perco grande parte do tempo, pois é onde se encontra meu grande trunfo. Como uma coruja na noite da floresta, te observo, presto atenção.

Quero te absorver por inteiro, e tudo relacionado a você, te capturar com meu olhar fixo e faminto de animal selvagem. Quero te devorar, minha saborosa presa, com toda a força da minha sedução. Admirar cada expressão sua, cada movimento, te reparar, te sentir, te alcançar.

Lápis preto e rímel somente em cima para levantar os ânimos da minha alma cansada e aflita. Pintura à vontade até o terço distal das pálpebras superiores, quando... atenção! Território proibido por meus traços caídos e que, se inadvertidamente for explorado, me fará a mais triste das criaturas de todas as galáxias. Pois então, continuo. Agora, cores. Muito pó colorido claro no canto medial, próximo do nariz, que escurece à medida que corre para o lado.

No entanto, não me satisfaço só com o olhar, preciso exercitar o que tenho recentemente praticado, o falar. Gosto de boca rosa, jovem, saudável, carnuda, forte e brilhosa. Ela pede que seja ouvida, que seja respeitada, desejada e correspondida. Beijos calorosos, doces e longos. Que deixem registrados, em algum lugar da minha existência, um sinal de que estou viva. De que você me aceita, de que você quer receber meu amor e quer me dar o seu em troca. É isso, uma troca, portanto, com duas vias.

Agora, ilumino o rosto com o blush certeiro que sempre me livra de achar que fiz besteira, de que carreguei de mais ou de menos, escarlate balança. E então, o “grand finale”, que, na realidade, é a primeira coisa a ser notada, antes mesmo de me ver você já me reconhece. No entanto, não é tarefa assim tão fácil estimular o olfato alheio. Dependendo da hora do dia ou da noite, do estado de espírito e do humor, uso diferentes perfumes. Antes de sair, me perfumo toda para você, dando ênfase, é claro, para a região do pescoço, pois será a primeira a ser abordada no cordial cumprimento na hora da chegada.

Agora estou pronta para te saborear, para ser amada e para ser feliz. Quero ser notada, fazer diferença na sua vida, quero ser importante. O que te peço não é muito, veja bem: apenas que você seja amável, cuide de mim, se preocupe em me agradar, saiba meu nome, lembre do meu aniversário e dos encontros marcados, que você abra seu coração para mim, me aceitando e me permitindo te descobrir. Te aceitarei também e você será assim como uma marca bonita na minha pele, uma delicada tatuagem, da qual lembrarei sempre com carinho e consideração.

Rio de Janeiro, 03 de Outubro de 2009